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O ingresso de Alecsandro no futebol foi quase obrigação. Nada imposto por alguém, mas por inspiração. Filho do ex-atacante Lela, campeão brasileiro de 1985 com o Coritiba, o centroavante do Inter se apaixonou pela bola, e por gols, de tanto ver o pai em campo. Frequentava os treinos do Coxa quase que diariamente e criou intimidade com o esporte.
- Meu pai nunca disse que eu tinha de ser jogador. Ele levava, incentivava, mas nunca me cobrou. Da mesma forma foi com o meu irmão. Nunca exigiu que jogássemos futebol - contou.
O irmão é Richarlyson, o caçula, volante do São Paulo. Foi com ele que Alecsandro dividiu as angústias, sonhos e frustrações das primeiras peneiras. Naturais de Bauru, no interior paulista, começaram a entrar na fila dos clubes da capital, mas era uma missão ingrata. Às vezes, em testes com mais de dois mil garotos, dar mais de dois toques na bola era privilégio.
- Foi difícil, mas compensador. Meu pai já estava parando de jogar, não foi um jogador que ganhou dinheiro suficiente para viver na aposentadoria, não conseguiu. Depois do futebol, teve de trabalhar. Era apertado, tive de sair muito cedo. Mesmo trabalhando, corria atrás do futebol. Foi um começo de testes e peneiras em alguns clubes. A tendência era fazer nos clubes de São Paulo, ficavam mais perto. Em alguns acabei não passando, mas prefiro não citar nomes. Eu não tinha essa frustração de não passar. Sempre acreditei no meu futebol, me destaquei no colégio, nas peladas de fim de semana. Entendia que com o futebol que eu tinha seria profissional. Era um pensamento maduro. Não me desesperava - explicou.
Se muita gente precisa de um empurrão para crescer, Alecsandro levou um puxão. Em 1996, ele e Richarlyson participaram de uma peneira do Vitória. Em duas jogadas, fez dois gols. A primeira fase estava vencida, e a próxima parada serie a capital baiana. Além da dupla, viajaram mais quatro meninos de Bauru.
- A distância de Bauru para Salvador, com 14, 15 anos, era ainda maior. No primeiro teste que passei, não queria ir. Achava longe. Fomos para Salvador, tinha mais testes, passei e meu começo no Vitória foi assim. Chegando lá, meu irmão e os outros quatro não passaram e tiveram de voltar. Ficou mais difícil, ficaria sozinho. Chorei muito na primeira semana. No dia em que os meninos foram embora, o Vitória tinha uma concentração e tinha um ônibus que levava para o treinamento. Quando o ônibus voltasse, o pessoal de Bauru já teria ido. Lembro bem, e até me emociono, que na hora em que o motorista ligou o ônibus e engatou a primeira, eu me vi só e gritei para ele parar. O motorista deu uma parada, só que um zagueiro chamado Márcio Gaia, que foi da seleção brasileira de base, puxou meu braço, falou para eu sentar e disse para eu ficar, que eu era bom. E todo mundo gritou: "Arrasta, motô!", uma gíria de lá. Fui chorando até o treino - disse.
Choro devidamente engolido, chegou ao time profissional um ano depois. Tudo muito rápido, tiro curto. Em sete anos no Rubro-Negro baiano, saiu duas vezes para jogar por empréstimo no Sport e na Ponte Preta. Com o fim do contrato, vendeu os direitos econômicos para o Cruzeiro. Apesar de o time de Belo Horizonte ter outras boas opções para o ataque, correspondeu quando exigido. Em 2006, foi para o Sporting, de Portugal. Ficou por uma temporada. De volta à Raposa, fez mais uma vez um bom papel. Em 2008, acabou vendido para o Al Wahda, dos Emirados Árabes. Acertou com o Inter no começo de 2009.
Uma particularidade marcou o giro de Alecsandro pelo Brasil e pelo mundo. Em todos os clubes que defendeu, teve de preencher lacunas.
- Eu lembro que quando deixei o Vitória, o Obina não fazia nem parte do plantel. Quando retornei, em 2005, ele tinha acabado de sair. Fez 18 gols no Brasileiro, estava em evidência, com moral. Tive de aguentar a pressão de substituir o Obina. Desde 2005 tenho que substituir alguns ídolos. Aconteceu no Vitória, no Sporting, que tinha o Deivid e foi vendido para a Turquia. No Cruzeiro, tinha que substituir o Fred. Nos Emirados Árabes, tive que substituir um jogador que era artilheiro da temporada passada. E aconteceu quando eu cheguei ao Inter, que foi a mais difícil, substituir o Nilmar, que é um grande jogador. Cinco anos de desafios. Se não tenho correspondido à altura, dou conta do recado - frisou.
E dá mesmo. No Inter, foi artilheiro do time na temporada passada com 28 gols. Ainda assim não é unanimidade na visão de uma pequena fatia da torcida. Encara 2010 como um ano que pode ser dele. O Colorado vai lutar pelo bicampeonato da competição mais importante do continente. Alecsandro sente que pode ser a referência vermelha.
- A Libertadores não me assusta. Não assusta porque me sinto preparado para este tipo de competição, por mais que seja a minha primeira vez. Até porque já joguei uma Liga dos Campeões que, para mim, depois da Copa do Mundo, é o campeonato mais difícil do mundo. Tive a oportunidade de jogar como titular do Sporting dentro do San Siro contra o Inter de Milão, na Itália. A Libertadores não me tira o sono. Pelo contrário. É mais um desafio, mas é um desafio que eu sei que eu posso conquistar. Falando em grupo, sei que o grupo pode conquistar. Ficamos na expectativa por ser um ano de Libertadores. Não só o torcedor do Inter, mas a diretoria e os jogadores estão empolgados para conquistar o bicampeonato - comentou.
O jogador acreditou no projeto do clube. Teve propostas para sair no fim de 2009, mas a diretoria colorada não topou, mesmo com o interesse de equipes da Europa. Prova de que o Inter conta com ele.
- Nós temos grandes jogadores no elenco. Não tenho como esconder, até pela idade (acaba de completar 29 anos), por ter sido o capitão em outras equipes, que o pessoal me considera um dos líderes do time. Sei que dentro de campo posso ser referência. Para ganhar títulos, você precisa fazer gols e, falando de gols, sou hoje um dos responsáveis por levar alegria para a torcida. Com eles, posso ser uma referência este ano. Pode ser um ponto positivo numa competição tão grande como a Libertadores. Acho que temos muitos bons jogadores, cinco ou seis, que podem ser referência - analisou.
Referência ou não, Alecsandro terá de começar a mostrar o que pode na Libertadores em breve. A estreia do Inter será no próximo dia 23, contra Newell's Old Boys, da Argentina, ou Emelec, do Equador, no Beira-Rio.
Fonte: GLOBOESPORTE.COM